Conheci seu Tonho em um passeio pela praia.
Na verdade, nem era um passeio, o carro quebrou e enquanto esperava socorro, resolvi andar um pouco. Ainda era cedo, havia saído do hotel quase 7 da manhã pois sabia que o trânsito seria pesado. O carro era emprestado de um amigo que pouco o utilizava. Talvez aí o motivo daquela fumaceira toda. Tranquei o carro perto da praia e saí andando.
Estava com os sapatos nas mãos e caminhando sobre a areia ainda fria.
Foi quando vi aquela figura com cabelos cor de fogo. O sol ia nascendo por trás da sua cabeça e dava um reflexo forte, intenso, como se estivesse realmente em chamas.
Algo me levava para perto dele.
Sentei ao seu lado e senti uma energia forte. Ele olhava para o mar, parecia procurar o horizonte.
- Conte-me coisas boas, disse-me ele.
Fiquei um tanto espantado com aquela frase. Eu nunca o havia visto antes e no máximo, esperava um.... BOM DIA.
- Bem, disse eu, o dia parece que não está sendo bom comigo. Acordei cedo para não perder a hora e o carro quebrou.
- Mas... você está bem, não está?
- Sim, claro, o problema foi com o carro.
- Existe algo que você possa fazer agora, neste momento, para solucionar o que aconteceu?
- Eu já fiz, chamei o mecânico.
- Então gafanhoto, respire fundo, absorva a brisa que vem de longe trazendo histórias, lendas, aventuras, verdades e fantasias. E se dê o direito de sentir um pouco mais a vida em você.
Nossaaa, essa me pegou pela medula. Primeiro me chama de “gafanhoto” e depois me dá uma lição de moral em apenas 10 segundos. Mas gostei. Gostei do jeito que ele falou, do tom da sua voz e, principalmente, da sua preocupação comigo.
- Qual o seu nome, perguntei?
- Um nome, você quer um nome. É o nome que faz as pessoas ou as pessoas que se constroem para serem chamadas por algum nome? Pode ser Tonho, está bom para você? Tonho, simplesmente Tonho. Ele começa meio vazio, mas com o tempo, ele pode ter sua própria personalidade, você não acha?
De novo ele me pegou. Que coisa estranha! O carro quebra e eu fui sentar logo ao lado de um extraterrestre. Só podia ser isso.
Não deu tempo de responder. Ouvimos uma buzina e era o mecânico tentando achar o dono do carro.
- Então tchau seu Tonho. Foi muito bom te conhecer. A gente se vê por aí.
Estendi a mão para cumprimentá-lo. Ele colocou sua mão direita sobre o coração e aí então a estendeu para mim.
- Sim, a gente se vê.
O conserto do carro foi rápido, na verdade, faltava apenas água no radiador. Um bom aditivo ajudou a resolver tudo. Enquanto me dirigia para a reunião voltei a pensar no seu Tonho e, no fundo, torcia para poder encontrá-lo novamente.
Mal sabia eu que eu jamais o deixaria.
NOMES ANÔNIMOS
Francisco tinha apenas 44 anos quando seu relógio biológico cismou de parar. E olha que ele não abusava. Tomava cervejinha sem álcool, e sem gosto também, mas considerava este sacrifício necessário para melhorar a qualidade de vida. O enfarte, daqueles nota 10, não deu tempo de ver esta melhora. Morreu no domingo, um dia não muito bom para se morrer pois o enterro seria na segunda. Pensávamos que pouca gente iria por ser um dia de trabalho, começo de semana etc. mas... ninguém faltou. A primeira surpresa foi a cerimônia fúnebre, realizada em uma mesquita. Todo mundo pensava que o Chico fosse católico. A família toda era católica. Descobrimos então que ele havia feito, alguns anos antes, a opção de ser muçulmano. Terezinha nos disse que ele tinha pilhas e pilhas de livros sobre o Alcorão e estava aprendendo árabe. E a gente pensa que conhece mesmo as pessoas. No fundo, conhecemos somente aquilo que elas permitem que conheçamos. Quase sempre ficamos sem conhecer a melhor parte das pessoas. O seu íntimo, seus sonhos, suas fantasias. Nos contentamos com aquela superficialidade do dia-a-dia. E, em troca, oferecemos o mesmo.
Depois que a cerimônia acabou, resolvi andar um pouco por aquele amplo espaço ajardinado. Gosto de andar por entre aquelas alamedas e pensar que ali repousavam únicas pessoas que conseguiram saber a verdade sobre o mistério pós-morte. Ironia da vida. Só os mortos sabem a seqüência da vida. Neste momento aconteceu a segunda surpresa do dia.
Em um banco banhado pelo sol, estava uma figura sentada com os braços estendidos ao lado do corpo, o rosto empinado frente ao sol como se estivesse recebendo toda a energia do universo. Me aproximei e quase que eu tive um enfarte. Era “seu Tonho”.
- o que fazes aqui, em São Paulo, em um cemitério?
Ele me olhou e sorriu.
- ‘as vezes é bom a gente não esquecer que ao mesmo tempo em que somos tudo, poderemos nada ser no momento seguinte. De vez em quando entro em um cemitério porque aqui é o único lugar em que se aprende o verdadeiro sentido da vida.
Não resisti e me sentei ao seu lado. Estava começando a perceber que “seu Tonho” veio pra ficar em minha vida.
- conte-me coisas boas, me disse ele.
- Contar coisas boas? Nesta hora? Aqui no cemitério?
- Sim, em qualquer lugar elas podem acontecer, em qualquer lugar elas podem existir. Estava aqui pensando sobre os sonhos e fantasias não realizadas por essas pessoas que aqui estão. Certamente tem aquele que esperava no dia seguinte ir comprar um novo carro, aquele outro que estava de malas prontas para viajar, a mulher que recebeu uma promoção e nem teve tempo de avisar ninguém, o garoto que ao atravessar a rua estava pensando no vídeo game novo que ganhara. E, assim, milhares e milhares de sonhos, pensamentos e esperanças que não se realizaram. Pelo menos nesta nossa visão do que é a vida.
Eu me pergunto: “ para onde foram todos estes sonhos? Simplesmente não se realizaram? . O que você acha?
- Eu não sei – respondi meio atônito. Nunca pensei nisso.
- Você fuma?
- Não.
- E se um amigo pedisse para você lhe comprar um pacote de cigarros e este pacote estivesse no banco de trás do seu carro no momento de um acidente de trânsito? Vamos supor que você morresse. Muita gente iria achar que você fumava escondido, certo? Agora troca o cigarro por um pacote contendo roupas íntimas que uma amiga de escritório pediu pra você entregar para outra pessoa. Ela estava apenas devolvendo e você nem sabia o que havia lá dentro. Acontece o acidente. Encontram o pacote no seu carro. O que iriam dizer de você?
- Ah! Seu Tonho, eu não sei. Tudo isso é muito improvável. Qual a razão de tanta
pergunta?
- Sabe gafanhoto, o destino não está em nossas mãos. Por mais que queiramos dirigir todos os nossos passos, existe ainda o Mistério da Vida, o Imponderável, o Senhor dos Destinos. Ele sabe de nos. Ele está dentro de nós. Para Ele não há segredos porque Ele também é Você. E, se Ele vive em cada um de Nós, isso significa que não existem sonhos, fantasias e esperanças interrompidas. Elas se realizarão em outro estágio, em outra dimensão, em outra forma de Vida. Até breve meu amigo. A gente se vê por aí.Apertou minha mão e a colocou em seu coração. Saiu caminhando com o olhar erguido, deixando o Sol bater em sua face. Naquele momento o Chico estava sendo baixado na terra. Me veio um sorriso na face. Uma estranha alegria tomou posse de mim. Segui lentamente o mesmo caminho do seu Tonho e deixei que o Sol também me tocasse. Estava feliz. Estava saindo de um enterro e estava feliz.
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1 comentários:
Legal ver você escrevendo novamente, poste mais!!
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