Achei que jamais voltaria a receber notícias, telefonema ou um e mail sequer. Seu Tonho havia ido embora. Definitivamente. Sentia falta mas nao podia fazer nada. Não tinha seu endereço, telefone, nada que pudesse localizá-lo. Pensei comigo: "melhor assim". Estava começando a sentir sua falta e me apegando a ele. Aí, numa noite, bem tarde, me chega um e mail. Pois é, um e mail do Seu Tonho. Antes de abri-lo, peguei um whisky com bastante gelo. Sabia que a coisa ia ser boa. Havia um anexo, sinal de que as novidades eram muitas. Eis o que Seu Tonho agora me escrevia:
"De repente decidi ir embora. Largar tudo. Começar de novo como diria o poeta. E saí por aí viajando. Achava que não tinha compromisso com ninguém. Era livre leve e solto. Queria me sentir um hippie novamente, lembrar dos tempos em que "sem lenço nem documento" pegava as estradas e segui sem rumo. Que engano meu amigo! Claro que você ainda encontra muita aventura por estes mundos afora, mas elas não são mais do tipo que eu preciso ter. Outras pessoas certamente irão fazê-las e senti-las por mim. Lembrei-me de você e me senti, de alguma maneira, responsável por este nosso início de amizade. Percebi que ainda tinha muita coisa para trocar com os outros seres de todos os planetas. Voltei a ler jornais e revistas, a ver televisão, ir ao cinema, procurei novos livros e me aproximei do webworld, o mundo fascinante da internet. Criei até um e mail: umabrasamora@hotmail.com. Meio louco não? Mas para o primeiro passo, até que está bom demais você não acha?
E você? o que anda fazendo? Esses dias todos fiquei aqui cismando com um assunto que me deixou atordoado. Você já ouviu falar em concorrências para obras públicas, certo? Tipo vão construir uma ponte, um viaduto, uma estrada etc e a empresa que apresentar o melhor preço para o melhor projeto, ganha a concorrência. Até aí tudo normal. Mas peguei o exemplo de uma ponte que ficou pronta estes dias, e que sempre achei que a Avenida que lhe dava nome era Àgua Espraiada e somente agora fiquei sabendo que é Água Estaiada. Ainda vou descobrir porque. Bem, a tal ponte, um marco de arquitetura para muitos, teve a concorrência encerrada para sua construção em 2002 e uma empresa chamada OAS venceu com um projeto que previa gastos de R$ 146,9 milhões e prometia entregá-la no final de 2005. Ficou pronta somente agora e os custos foram para mais de R$ 260 milhoes de reais. Segundo as autoridades envolvidas, essa diferença de preço deveu-se a "aditamentos normais". Eu fico aqui tentando entender a beleza da lingua portuguesa. E vou tentar fazer o mesmo. Faz de conta que sou engenheiro e você quer construir uma garagem coberta em sua casa. Eu faço o projeto e dou o custo final em R$ 16 mil reais. Outros dois engenheiros apresentam custos maiores e, portanto, eu ganho a concorrência. Você vai viajar e eu digo que na volta da sua viagem, daqui a dois meses, ela estará pronta. Quando você retorna, eu digo que agora a garagem agora ficou em R$ 29 mil reais em função dos "aditamentos normais". Aí você lembra que os dois perdedores tinham custos de R$ 21 mil e R$ 23 mil reais. Ou seja, eles teriam ganho de mim se eu tivesse sido justo, leal e honesto. Com essa história de "aditamento" eu simplesmente MENTI para ganhar a concorrência. E agora, como fica a história desta ponte e de tantas outras pontes, estradas, praças, viadutos etc etc que diariamente são construídas com nosso dinheiro e seus custos sempre são "aditados"?
Estou pensando sobre isso. Por favor meu caro amigo, me ajude a entender a beleza da lingua portuguesa, onde as palavras mudam de significado dependendo dos interesses de cada um.
Ah! me avise se recebeu esse e mail. Agora tomei gostinho pela coisa. Abraço grande. Inté mais.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
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