quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O SIGNIFICADO DOS TITULOS

Estava me preparando para mais um dia de trabalho dentro da monotonia habitual que minha profissão atual exige, ou seja, “pilotar” uma maquina de engarrafamento em uma grande cervejaria, quando o carteiro não pontualmente, chegou e colocou aquelas intermináveis correspondências na caixinha. Da janela da sala fiz o sinal de ok para ele mas dessa vez vi que ele estava segurando um envelope e fazendo sinal para eu ir até lá. Era uma correspondência especial e que precisava de minha assinatura para entregar. Pelos desenhos no envelope, logo vi que Seu Tonho estava de volta. Era costume dele sempre fazer algum desenho nos envelopes, nem todos tinham sentido para mim, mas já havia virado sua marca registrada. Fazia muito tempo que ele não ligava, não escrevia, nem enviava e mails. Aparecer então, nem pensar. Liguei correndo para o trabalho dizendo que iria demorar um pouco porque o carro tava sem bateria. Sentei e ansiosamente abri a tão esperada carta. Sempre havia algo de bom nas palavras de Seu Tonho.
“Querido amigo, não adianta reclamar que eu desapareci novamente etc. etc. Vivi muitas vidas nesse tempo todo e aos poucos vou lhe emprestando um pouco de toda a emoção que senti nas viagens que fiz, nas pessoas que conheci, nas histórias que me fizeram fazer parte. Gostaria de compartilhar, agora, com uma pequena descoberta que não me sai da cabeça e que me deixou muito preocupado. Eu simplesmente percebi que os Títulos das pessoas perderam todo seu valor, todo seu conteúdo. Parece uma bobagem meu caro amigo, mas é algo muito sério.
E, os exemplos são os mais díspares possíveis. E os mais simples também, aqueles que fazem parte do nosso dia a dia, de nosso cotidiano, das matérias de TV, das reportagens, do nosso relacionamento pessoal e profissional. Me lembro muito bem de quando eu, bem pequeno ainda, ouvia minha mãe dizer que determinada pessoa era “crente”, e isso era sinônimo de alguém que carregava uma bíblia, ia à igreja, não bebia, não fumava e representava uma pessoa boa, que seguia ao extremo as regras da igreja. Um “crente” era alguém em quem se podia confiar. Isso também valia para os católicos, espíritas e outras pessoas que tinham na religião um fio condutor para suas vidas. Por conseqüência, o “pastor” da igreja, ou o padre e qualquer outro mentor religioso também era considerado um exemplo de retidão e bom caráter. Isso se perdeu com o tempo. Pastores e bispos são acusados de se beneficiarem das oferendas dos fiéis e enriquecerem ilicitamente, são hoje envolvidos com política e mantém cargos públicos onde lutam por conseguirem mais isenções para suas igrejas e evitar que se busque a verdade por trás da indústria das religiões. Padres são acusados de práticas sexuais com fiéis e os escândalos são febrilmente acobertados. Mas vamos passar para outros “títulos” que antes mereciam mais respeito e reverência. Lembram quando falavam que aquela pessoa era da “polícia”? Uma aura de respeito acompanhava essa palavra. Era como se a gente precisasse de alguma ajuda, podíamos contar com aquela pessoa intitulada “polícia”. Hoje, pensamos duas ou mais vezes antes de nos dirigirmos a uma viatura, a uma delegacia ou mesmo para algum guarda parado nas ruas. São tantas as noticias de policiais envolvidos com quadrilhas, com gangs, com traficantes e toda espécie de malfeitores que, na prática deveriam ser o a última essência do convívio de um policial, que já não damos mais o mesmo valor para a palavra “policia” como dávamos antes. E o que dizer então dos “Senadores da República”, figura histórica dentro da evolução democrática de nosso país. Eles formavam a elite política, os guardiães do cumprimento dos desejos do povo. Fico aqui tentando comparar a figura de Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay com a de José Sarney.
Crítico das influências da literatura francesa, Taunay buscava promover a arte brasileira no exterior.Taunay foi um autor prolífico, produzindo ficção, sociologia, música (compondo e tocando) e história. Na ficção, a obra Inocência é considerada pelos críticos como seu melhor livro. Foi oficial da Imperial Ordem da Rosa e cavaleiro das imperiais ordens de São Bento de Avis e de Cristo.Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criou a Cadeira n.° 13, que tem como patrono Francisco Otaviano.
Pode-se querer também comparar o senador Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo com a de Ruy Barbosa? Pesquisando um pouco sobre a vida de Ruy Barbosa, encontramos fatos que nos fazem voltar a acreditar que ainda teremos bons políticos em nosso país.
Em 1885, no auge da campanha abolicionista, José do Patrocínio escreveu: "Deus acendeu um vulcão na cabeça de Ruy Barbosa."
Em novembro de 1889 Benjamin Constant escreveu a Ruy: "Seu artigo de hoje, Plano contra a Pátria, fez a República e me convenceu da necessidade imediata da revolução." Dias depois, em 15 de novembro de 1889, Barbosa redigiu o primeiro decreto do governo provisório e foi nomeado Ministro da Fazenda, no governo de Deodoro da Fonseca.
Quando Ministro da Fazenda, mandou queimar os Livros de Matrículas de escravos existentes nos cartórios das comarcas e registros de posse e movimentação patrimonial envolvendo todos os Escravos, o que foi feito ao longo de sua gestão e de seu sucessor. A razão alegada para o gesto teria sido apagar "a mancha" da escravidão do passado nacional. Em 1891 é nomeado Primeiro Vice-Chefe do Governo Provisório. Em 1892 abandona a bancada do Senado, depois de feita a justificativa em discurso. Dias mais tarde lança um manifesto à nação no qual diz a famosa frase: "Com a lei, pela lei e dentro da lei; porque fora da lei não há salvação. Eu ouso dizer que este é o programa da República". Em 23 de abril do mesmo ano sobe as escadarias do Supremo Tribunal Federal, sob ameaça de morte, para defender, como patrono voluntário, o habeas corpus dos desterrados de Cucui.
Ruy Barbosa foi refugiado político no Chile e, sob ameaça de morte, exilado em Buenos Aires
Em junho de 1907, Ruy vai à Conferência de Haia, sendo sua consagração mundial. Sobre isso escreveu W. Stead: "As duas maiores forças pessoais da Conferência foram o Barão de Marschall da Alemanha, e o Dr. Barbosa, do Brasil... Todavia ao acabar da conferência, Dr. Barbosa pesava mais do que o Barão de Marschall".
Em 21 de outubro de 1908 discursa, em francês, na ABL, em recepção a Anatole France
Ocorre em 1918 o Jubileu Cívico. Paul Claudel, ministro da França, entrega-lhe as insígnias de Grande Oficial da Legião de Honra. Recusa convite de Rodrigues Alves para ser Chefe da Delegação Brasileira ao Congresso da Paz, em Paris.
Em 1921 renuncia à cadeira de Senador de "coração enjoado da política". Recusa o cargo de Juiz Permanente na Corte de Haia). Ainda no mesmo ano, recusa projeto do senador Félix Pacheco para que fosse concedido a Ruy um prêmio nacional em dinheiro, dizendo: "A consciência me atesta não estar eu na altura de galardão tão excepcional".
Pois é meu amigo. Sei que podes achar essa minha carta um pouco maçante ou enfadonha, mas esse é um tema para o qual devemos nos ater com a máxima seriedade. Os títulos já nao valem o que deveriam valer. Procure você mesmo fazer esse exercício de ficção real com aqueles que ostentam os títulos de médicos, professores, advogados, juízes, ministros e tantos e tantos outros. Aquilo que eles deveriam representar para todos nós, já nao é o espelho da realidade. Você conhece algum médico que siga o Juramento de Hipócrates? – “Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém.”. Claro que não podemos ser radicais. Em toda regra tem exceção, mas hoje nos parece que até mesmo a exceção não segue a regra.
Enfim, meu amigo, fico a pensar comigo mesmo se a evolução do ser humano não está sendo feita de traz para a frente. Acho que tudo isso é uma boa desculpa para eu ver novamente o Planeta dos Macacos, lembra? Clássico do Cinema Americano do gênero ficção científica, baseado na obra de Pierre Boulle,. Conta a experiência de um astronauta sobrevivente de uma missão espacial, que aterrissa em um planeta igual à Terra e descobre que uma raça de macacos falantes domina e escraviza seres humanos, que são mudos
Quem sabe esse nao será o nosso recomeço?
Um grande abraço. Prometo que na próxima vez nao o reterei tanto com meus pensamentos.
Até breve
Seu Tonho.
Terminei a carta e já nao tinha mais vontade de ir ao trabalho. Por mais que quisesse pensar em outras coisas, ficava tentando descobrir quais as pessoas que eu conhecia e eram “tituladas” e que poderiam nao merecer esses títulos. Eram muitas.
Seu Tonho tinha razão. Ri bastante quando de repente me lembrei de um grande empresário do tempo da ditadura no Brasil que chamava todo mundo em sua empresa de Doutor, incluindo os office boys.
Realmente, títulos já nao valem mais nada.

0 comentários: